Coleção Xilogravura

Coube ao pintor maranhense Floriano Teixeira, contratado para a função de desenhista, em abril de 1956, mas convocado para servir no Gabinete do Reitor, na condição de assessor para assuntos de arte, o papel de principal colaborador nas ações de coleta de estampas de xilogravuras populares para o museu da Universidade. Em julho de 1958, por portaria do Reitor, inicia uma viagem à região do Cariri com a finalidade de coletar material artístico e folclórico para a Universidade.

Segundo Maria Laura Cavalcanti:

“[…] a década de 1950 marca o início de uma ampla movimentação em torno do folclore reunindo a sua volta nomes como Cecília Meireles, Câmara Cascudo, Gilberto Freire, Artur Ramos, Manuel Diégues Júnior. Institucionalmente, essa movimentação é articulada pela Comissão Nacional do Folclore, do Ministério do Exterior, e vinculada à UNESCO (organismo da Organização das Nações Unidas). A Comissão é liderada por Renato Almeida, diplomata e estudioso da música popular. No contexto do pós-guerra, a preocupação com o folclore enquadra-se na atuação em prol da paz mundial. O folclore é visto como fator de compreensão entre os povos, incentivando o respeito das diferenças e permitindo a construção de identidades diferenciadas entre nações que partilham de um mesmo contexto internacional. O Brasil de então orgulhava-se de ser o primeiro país a atender à recomendação internacional no sentido da criação de uma comissão para tratar do assunto.”

Em fevereiro de 1958 um Decreto presidencial institui a “Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro”, diretamente subordinada ao Ministro de Estado da Educação e Cultura e tendo entre outras finalidades a de propor medidas que assegurassem proteção aos folguedos, às artes populares e ao respectivo artesanato.

A missão de Floriano Teixeira, portanto, encontra-se respaldada não somente por uma ação local, mas reflete a sintonia política da gestão Martins Filho com um movimento que se desenvolve no âmbito nacional a partir do Ministério de Educação e Cultura.

Em 1959 é firmado um convênio entre a Campanha Nacional de Defesa do Folclore e a Universidade do Ceará, sendo aqui instalada a “Comissão de Estudos de Folclore” integrada pelos “intelectuais Manuel Eduardo Pinheiro Campos, Artur Eduardo Benevides e Florival Seraine, estudiosos de reconhecido mérito na matéria.”

A aproximação da Universidade com as manifestações folclóricas e práticas artesanais da região do Cariri foi de fundamental significação para reforçar, em Martins Filho, a percepção da necessidade de preservação das imagens xilográficas impressas nas capas dos folhetos populares da literatura de cordel.

Se a Universidade do Ceará tem, entretanto, inegável interesse na colheita de exemplares de toda essa “literatura”, esse interesse se redobra no que tange à xilogravura da capa e das ilustrações, já que o seu desaparecimento, este sim, é fatal e bem próximo: a grande maioria das peças colhidas já está fora de uso, substituídas que foram pela zincogravura, que, perdendo, embora a confecção popular na confecção do clichê, conserva, todavia, no desenho a ingenuidade de concepção do artista inculto.

Esta visão de Martins Filho foi determinante para que delegasse a Floriano Teixeira uma nova missão: entre os dias 12 e 15 de fevereiro de 1960, agora acompanhado de Lívio Xavier Junior, para “colher, em Juazeiro do Norte, cópias de xilogravuras populares destinadas, inicialmente, à exposição que será levada a efeito no Museu de Arte Moderna de São Paulo”.

Não consta nos relatórios de viagem prestados pelos dois viajantes nenhuma referência de autoria referente às estampas coletadas. Também não tivemos acesso ao catálogo da exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo. No entanto, vamos encontrar referências de autoria no catálogo da exposição de Instalação do Museu de Arte da Universidade do Ceará, em 1961, no qual constam, como pertencentes ao acervo da instituição, obras de autoria de Antônio Batista da Silva, Damásio Paulo, João Pereira da Silva, Walderêdo Gonçalves, além de uma extensa lista de obras de autores anônimos.

Outras referências aparecem no catálogo da exposição Gravuras populares do Nordeste Brasileiro, realizada com obras pertencentes ao acervo do MAUC, em dezembro de 1961, na Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa. Nesta exposição, além dos nomes anteriormente citados, vamos encontrar Antônio Lucena, José Caboclo da Silva e Manuel Camilo dos Santos.

Em janeiro de 1962, Floriano Teixeira, já como diretor do Museu de Arte, por determinação de Antônio Martins Filho, segue para uma nova missão na região do Cariri. Na sua agenda uma tarefa que vai mudar significativamente o modo de produção da gravura: encomendar a Antônio Lino, Mestre Noza, José Caboclo e Walderêdo Gonçalves a produção dos primeiros álbuns xilográficos.

Os anos seguintes à saída de Floriano Teixeira da direção do Museu vão marcar um distanciamento das relações entre os centros nordestinos de produção da xilogravura e o Museu de Arte da Universidade. A reaproximação ocorreu no início dos anos 90 e permanece até hoje. Este novo elo se deu por conta da iniciativa e notória ação diplomática do pesquisador de cultura popular e professor Gilmar de Carvalho, ao estabelecer uma sólida relação de confiança entre os xilógrafos e a direção do MAUC.

Assim não só o MAUC reabriu suas salas de exibição para mostras de xilogravura de produção recente, como através da mediação do referido professor, ampliou o seu acervo de estampas xilográficas, inserindo nomes como Abraão Batista, Francorli, José Lourenço e Stênio Diniz.

Matrizes Xilográficas

A viagem de pesquisa realizada por Floriano Teixeira e Lívio Xavier no início dos anos 60, tinha como objetivo colher cópias de matrizes xilográficas. O primeiro registro encontrado da compra de matrizes xilográficas aparece em 1961. Trata-se de uma nota, assinada por José Bernardo da Silva, referente à venda de 151 matrizes, acompanhada da assinatura de Floriano Teixeira certificando o recebimento das peças.

Pode-se deduzir, no entanto um grande empenho e certa facilidade por parte de Floriano Teixeira na obtenção de matrizes, uma vez que em pouco tempo este acervo já estava triplicado. A encomenda de álbuns xilográficos feitas por Floriano em 1962, trouxe para o acervo do MAUC as matrizes desses álbuns: Os Doze Apóstolos e A Vida de Virgulino Lampião Ferreira de Mestre Noza; A Vida de Padre Cícero de Antônio Lino; As Aventuras de Vira Mundo de José Caboclo da Silva e Apocalipse de Walderedo Gonçalves.

Seguiu-se então um período de afastamento e de reaproximação similar ao ocorrido com as estampas. O momento mais significativo desse reencontro ocorreu em 2002 quando da exposição 12 Álbuns-12 Gravadores – realizada no Museu de Arte -, ocasião na qual foram mostradas lado a lado matrizes e estampas.

Esta exposição também marcou a doação para o acervo das doze coleções de matrizes expostas com destaque para as matrizes do álbum Caldeirão de Stênio Diniz. Neste mesmo período, o MAUC recebeu do Prof. Gilmar de Carvalho a doação de dois álbuns, em matrizes, Via Sacra e Sete Pecados Capitais de Antônio Batista da Silva.

Exposições realizadas:

Abertura ; Bestiário: Xilogravuras de Sebastião de Paula – 07/06/2001
Exposição ; Bestiário: Xilogravuras de Sebastião de Paula -07/06/2001
Exposição ; Francisco de Almeida – Xilogravuras – 27/04/2006