DIÁLOGO SEM CENSURA
Antônio Bandeira x Milton Dias
1. Que acha de entrevista?
R. Sou um pouco anti. E, no caso do pintor, pintura já é entrevista. Estarei pendurado (os quadros), no Museu de Arte da Universidade do Ceará, a partir do próximo dia 3. E por favor não ponha "mago" ou "artista do pincel", "arte de Miguelangelo", "glória do Ceará". Tudo isto é muito gentil mas um tanto "demodé".
2. Por que sua cara aparece tanto em jornais e revistas?
R. Tenho a cara larga, e além disso muitos amigos. Hoje se preocupam muito com a vida do artista-pintor e o público que é curioso quer ver a gente despido. Os outros fatores são os milhões de jornais e revistas espalhados no Brasil: brasileiro lê muito.
3. Por que pinta?
R. Pintar é físico e mental. Tenho cabeça e mãos e gosto de fazer alguma coisa "avec".
4. Pintura dá pra viver?
R. A minha dá e muito. Mas no começo é duro, tem-se de insistir demais. O importante é treinar no ofício e livrar-se de empreguinhos. Com o tempo o pintor ganhará seu pão com o suor do seu rosto. Precisa-se de muita inspiração e transpiração também.
5. Por que vive ou pretende viver entre o Brasil e a Europa?
R. Sou brasileiro, mas a profissão e o acaso me levaram para Paris. Viajei jovem e amadureci por lá. Isto fica na gente. E até um sentido de gratidão me obriga a ser fiel a Paris. De volta ao Brasil, encontrei meu lugar e me reconheceram como pintor. Como vê, tenho de rebolar e ficar entre os dois continentes. Até o fim dos meus dias, creio que comprarei passagem de ida-e-volta. No fim tirarei "cara-ou-coroa" para saber de que lado corre o vento.
6. Que acha do ambiente artístico brasileiro?
R. Bom. Nesses dez anos o Brasil fez um progresso tremendo. Para isso contribuiu remotamente a Semana de Arte Moderna de 1922, e posteriormente os Museus (que agora aumentam de número), as Bienais e atualmente as Galerias de Arte. E como o Brasil será a nova potência como país, tudo tem de progredir paralelamente. Hoje já se investem capitais em pinturas como em prédios. O que nos falta é mais divulgação (principalmente do plano artístico) dentro e fora do País, com publicações especializadas, bolsas de estudo, etc. Com a palavra o Itamarati e as Universidades.
7. E do de Fortaleza?
R. Depende em parte do movimento brasileiro. Fortaleza é uma cidade nova, susceptível de aceitar todo movimento de renovação e economicamente capacitada a desenvolver centros de cultura e de arte. Que nos tragam mais gente do sul ou do exterior, para intensificar cursos, proferir conferências (o que é chato), que nos promovam mais exposições. Educando o público, teremos uma mentalidade para compreensão das artes. Não nos falta sensibilidade, pois, do mais pobre ao mais rico, o cearense vive apreciando crepúsculos e auroras. Imagine se o puserem diante de um bom quadro!
8. Como levar a arte ao povo?
R. Alfabetizando-o e educando-o primeiro para isto. Depois a arte vai a ele ou ele vem a ela. Não é importante quem chega primeiro. O essencial é chegar.
9. E à elite?
R. Elite já é eleita (sem trocadilho) por berço e independência financeira, mas assim mesmo depende enormemente do povo (ver resposta anterior).
10. Que acha de folclore?
R. Necessário e decorativo para os povos primitivos, até servindo de brinquedo para crianças. O folclore se transforma em erudição, depois de filtrado pelo gosto de colecionadores. Também pode servir de inspiração para obra de arte, sendo ele próprio um artesanato consciente e um labor cotidiano de um determinado povo ou região.
11. Acredita em arte primitiva?
R. Arte em geral é sinônimo de estudo, de aperfeiçoamento e de cultura. Acredito no primitivo do convento, num Giotto e num Fra Angelico, ou então no primitivismo na criatura ignorante mas sensível. Creio na arte primitiva feita pelos loucos e pelas crianças, mas com aceitação limitada, partida de um princípio emotivo.
12. Tem método ou fórmula para pintar?
R. Já disse que pintar é ato mental, por isto vivo pintado sempre, mesmo quando não estou trabalhando. O método ou a fórmula são princípios matemáticos e o artista é um ser antimatemático por excelência.
13. A que horas prefere trabalhar?
R. Qualquer hora é hora. O artista deve sempre estar em disponibilidade para o momento da criação. Para isto precisamos duma liberdade total, mas prefiro manhãs e noites, quando os momentos de solidão são mais propícios.
14. Quais os motivos que inspiram sua arte?
R. Todos e tudo. Estou sempre disposto a receber emoções a fim de transmiti-las ao meu trabalho. Porém minha pintura é mais de metamoforse, de transfiguração. É uma transposição de seres, objetos, cousas, momentos, gostos, olfatos que vou vivendo no presente, passado, futuro.
15. Que quadro gostaria de pintar?
R. Nunca pinto quadros. Tento fazer pintura. Meu quadro é sempre uma sequência do quadro que já foi elaborado para o que está sendo feito no momento, indo esse juntar-se ao quadro que vai nascer depois. Talvez gostasse de fazer quadros em circuitos, e que eles nunca terminassem, e acredito que nunca terminarão mesmo.
16. Que conselhos daria a um jovem pintor?
R. Primeiro é que ele tenha realmente vocação e vocação não se aconselha. Depois, muito talento (também não se aconselha). O resto seria muito trabalho, muito correr-mundo, vivendo a vida sem medo e com total liberdade, sem preconceitos sociais nem morais.
17. Você se candidataria a uma cátedra duma Academia de Belas Artes?
R. A pergunta cheira muito a "blague". Mesmo assim sou um antiacadêmico por natureza, até para ensinar e aprender. Academia só mesmo a dos gregos, pois o nome é bonito e nós, contemporâneos, gostaríamos de apreciar aqueles sábios velhotes de túnica conversando e filosofando sobre a vida e as coisas.
18. Você se basta a si mesmo?
R. Uma solidão dirigida até que é necessária. Agora o chato é a gente ficar sozinho quando não quer. O ideal seria ficar no quarto de portas trancadas, com a escola de samba passando ao largo.
19. Por que você não casa?
R. Também não venha dizer que "esposei a arte". Casar ou não casar para mim é a mesma cousa. Creio que já nasci com incompatibilidade de gênios e crueldade mental. Talvez me faça falta um filho, mas isto independe de casamento.
20. Teria coragem de viver sozinho numa ilha?
R. E para quê ilha maior do que este mundão tão vasto, cercado de gente por todos os lados? Já vivo nela.
21. Que pensa da era dos astronautas?
R. Necessária para a ciência. Pena que estão invadindo e estragando a nossa poesia, tirando todo mistério e sem mistério a gente não agüenta o mundo. Descobertas são anunciadas e esperadas e, antes de Gagárin subir tão alto, o artista já sabia que a terra era azul.
22. Tem alguma ligação entre Saint-Germain-des-Près, Copacabana e a Rua Santa Isabel?
R. Da Rua Santa Isabel guardei o vigor dos meus pais, gosto e cheiro das frutas da infância, a ciranda no areal. De Copacabana onde vivo atualmente e que considero a capital do Brasil, sinto um mundo de praias, de cores e de liberdade. Saint-Germain é aquela aldeia que você conhece e que também é uma grande cidade. Sabe, o melhor do "Quartier" é que todo mundo se diz bom-dia. E acho que na vida devia ser assim - todo mundo se cumprimentando.
23. Você, que tem fama de boêmio, como consegue organizar sua vida?
R. Boêmia desorganizada é de cigano. Já comi muita vaca magra, só agora estou comendo as gordas. Mesmo pobre numa água-furtada, fui sempre um homem organizado. Não o era antes, foi o viver sozinho que organizou minha rotina. Boêmia é vida e, como gosto de viver, tenho de me organizar.
24. Já teve vontade de pular duma ponte para o rio?
R. Tentaria o contrário, pular do rio para alcançar a ponte,pois, não sabendo nadar, gosto muito da vida.
25. Como encontrou o Grupo Clã?
R. Disperso e sem nenhum entusiasmo. Nem aquele passado tão movimentado deixou marca. Sobravam livros publicados, mas até isto já cheira a fruta do passado. Gostaria que Clã se agrupasse e produzisse algo importante.
26. O que seus pais pensam de você e qual a sua afinidade com a Fundição?
R. Se meu pai pensa algo, nunca o disse. É aquele patriarcado do homem do nordeste e eu respeito isso. Aqui eu sou um Bandeira igual aos outros filhos gosto disto. Da Fundição aprendi misturas que meu pai nem supeita, mas vendo derreter ferro ou bronze, de corpo, de alma, de vento, de paisagem, de objeto e dessa mistura fabrico as peças para o meu trabalho.
27. Você acha que o Museu de Arte do Ceará está no caminho certo?
R. O MAUC é um bom começo. Antes não tínhamos nada, ou melhor, tínhamos, mas nada agrupado. O MAUC promove e quer promover exposições de artistas daqui e de fora. Espero que todos os artistas daqui compreendam e se unam para a luta. Digo mais: O Museu não é somente da Reitoria e dos que lá trabalham: as portas estarão sempre abertas para todos os artistas de talento e de boa vontade.
(Obras Expostas)
1 Azul Noite de Luar
2 Casario branco sob sol vermelho
3 Cidade dourada
4 Crepusculando
5 Cais noturno
6 Jangadas
7 Paisagem de Mar
8 Paisagem atormentada em brancos
9 Paisagem transparente
10 Vegetal
11 Alvoradas de Navios
12 Navios em pleno sol
13 Navios no primeiro crepúsculo
14 Navios no crepúsculo último
15 Navios entrando na noite
16 O Morro Vermelho
17 Longínquo Morro e Casario
18 Janelas Noturnas
19 Cidade distante
20 Cidade se distanciando
21 Clareira esverdeada
22 Entre árvores
23 Sol nascendo
24 Na paisagem agreste
25 Paisagem do entardecer
26 Paisagem em lilás
27 Campos queimados
28 Paisagem cinzenta
29 Paisagem
30 Floral
31 A grande cidade
32 Lagamar
33 Cidade vermelha
34 A catedral
35 Cidade anoitecendo
36 Noite