ACERVO
DESCARTES GADELHA



EXPOSIÇÕES DE DESCARTES GADELHA NO MAUC

1963
40 pinturas a óleo

1974
Descartes Gadelha

1983
O Santo A Fé
O Homem A Terra

1989
Catadores do Jangurussu

1991
De um alguém
para outro alguém

1999
Cicatrizes submersas

2004
Iracemas, Morenos
e cocacolas

2006
Caldeirão de fé

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Exposições:    


DESCARTES GADELHA

CATADORES DO JANGURUSSU
RETROSPECTIVA

18 de outubro a 30 de novembro de 2010

Vida no chorume

Obras expostas
Panoramas da Exposição
Imagens da solenidade de abertura

Visitas a esta exposição:
Conselho Nova Vida - Jangurussu
Projeto Crescer com Arte - Jangurussu
Núcleo de Desenvolvimento da Criança - NDC/UFC



“Não quero pintar a paisagem do lixo. Quero compreender a alma das pessoas que sobrevivem do lixo.”
Descartes Gadelha


ARTE E RESTOS HUMANOS: O JANGURUSSU DE DESCARTES GADELHA

As regras da museologia proíbem o toque nos quadros de uma exposição. Em alguns espaços, existe uma faixa amarela que demarca até onde se pode ir. As câmeras estão atentas ao que pode ser uma atitude de vandalismo.
Algumas propostas estimulam uma atitude lúdica e o espectador / fruidor é chamado a interferir, mas esta não é a regra, e sim a exceção.
Urubus chegandoSe não podemos ir até a obra, ela pode, algumas vezes, superar os limites impostos pelos chassis, as cores e imagens podem escorrer das telas e instalar um desassossego, nos deixando aturdidos, e mexendo com nossa sensibilidade. É o que acontece com os "Catadores do Jangurussu", do Descartes Gadelha.
Não deve ter sido fácil para o artista esta convivência com situações limites para o ser humano. O resultado é desbragadamente expressionista e tem uma força que a fotografia, por exemplo, não consegue transmitir.
A força pode vir, talvez, da incompletude das imagens, que somos obrigados a refazer com nossos códigos de bom gosto, com as noções de belas artes, e com nosso humanismo ocidental.
Descartes, definitivamente, não combina telas com as cores das paredes, nem com o mobiliário dos "designers" de Milão. Tudo aqui é excessivo, chocante, uma sucessão de socos no estômago, que nem todos aceitam de bom grado receber.
Ele pinta o abismo da condição humana, agravado pela ganância que leva à concentração perversa da renda e ao "apartheid" social, que vem sendo combatido no Brasil, pelas políticas públicas que passaram a focar os excluídos, e pela sociedade civil que passou a incorporar práticas mais responsáveis e solidárias.
Pietá do lixoA reciclagem, por exemplo, levou à desativação do lixão do Jangurussu. Antes disso, Descartes esteve lá, viu urubus rondando a área degradada, cães disputando restos e homens e mulheres rebaixados a condições sub-humanas.
Esta exposição é de pintura. A indignação move o artista, como exercício de cidadania. Ele sentiu o que pintou. O Jangurussu dele não é de cartão postal e não estetiza a miséria. Fica difícil degustar este prato que ele nos oferece. O lixão existiu por conta de nossa omissão. E aqui passa a ser visto como num "travelling", a técnica cinematográfica da varredura. Tem-se o panorama e o impacto dos detalhes. No meio dos escombros, a epifania de uma Pietá. O sujo torna-se matéria estética, não de forma meramente conceitual, de um tardo-dadaísmo ou de uma aposta no efêmero. O estranhamento vem da forma como aceitamos este jogo. Este espaço é um campo de batalha, onde se constrói o manifesto do artista, e onde nós temos o papel do coro da tragédia grega.
Olhos do lixoDescartes Gadelha mostra o que queremos colocar debaixo do tapete ou esquecer que um dia existiu. O incômodo é tão grande que provoca náuseas, mas estamos falando de arte, de grande arte, e de restos humanos, de um material datado dos anos 1980. Levará ainda muito tempo para que possamos exorcizar e fruir tudo isso como algo que não acontece mais. Talvez não aconteça nesta escala, mas homens e mulheres ainda buscam restos de comida nos contêineres do centro da cidade.
Ainda bem que isto é arte. A vida consegue ser, quase sempre, ainda mais dramática.

Gilmar de Carvalho


EXPOSIÇÃO RETROSPECTIVA CATADORES DO JANGURUSSU

COLEÇÃO DE OBRAS REALIZADAS NA DÉCADA DE 1980
SOBRE A COMUNIDADE DE CATADORES DA RAMPA DO JANGURUSSU

Foto: Pedro HumbertoÀs vezes os desenhos ou pinturas não saiam bem feitos, mas às vezes alguns saiam relativamente bem realizados. Na ocasião não percebia as questões técnicas e estéticas porque estava vivendo emocionalmente com a temática. Só paro um trabalho quando a emoção estanca. Depois de um determinado período, quando revejo o trabalho, o mesmo já não me toca, porque a emoção do fazer já não existe mais. Apenas observo a pintura como não tivesse sido feita por mim.
No local existiam as dificuldades concernentes às condições físicas ambientais e de instalação do fazer artístico, entretanto as dificuldades psicológicas diante daquela situação ainda eram maiores porque existia o envolvimento emocional diante daquela situação social de miséria absoluta. Já os aspectos técnicos de tratamento do lixo, bem como os danos que o mesmo causa ao ambiente não foi do meu interesse porque na época já existiam instituições especializadas para as questões relacionadas a degradação ambiental.
EsperaEsse trabalho foi iniciado no começo da década de 1980, lá no aterro. Demorei nove anos para expô-lo porque sempre achava que tanto o aspecto temático quanto pictórico o público não ia gostar. Mas foi o prof. Pedro Eymar Barbosa que me estimulou a realizar a exposição no MAUC no ano de 1989.
Das 80 peças, entre desenhos, gravuras e pinturas realizadas no aterro só foi possível, na primeira exposição, expor 34 devido o espaço do MAUC. Atualmente ainda disponho de 65 peças, dentre as quais serão escolhidas uma quantidade adequada ao espaço do MAUC para a exposição Retrospectiva.
Para a realização do trabalho foram transcritas fitas K7 e, posteriormente, sistematizadas de forma resumida para compor os textos, assim como as observações repentinas e motivadoras. Foram momentos únicos de convivência, segundo os quais as obras foram realizadas.
Boneca sem pernaTanto as gravações, bem como as anotações, foram realizadas no próprio local em diversos momentos de convivência, através de diálogos, na maioria surpreendentes pela espontaneidade e autenticidade das falas.
O pintor como o escultor na realização de uma obra mergulha no espaço da tela como estivesse numa batalha armada, em pleno front. Luta incansavelmente. No final a arte vence e o artista tomba.

Descartes Gadelha


LEGENDAS
(Textos de Descartes Gadelha)


Estudo para 'Guerra diariamente'
Uma multidão sobre a rampa lembrando cenários de filmes das guerras de corpo a corpo.


Dona Lindomar
Dona Lindomar é asmática e tuberculosa e por ser evangélica acredita que a qualquer hora será curada pelos 380 apóstolos da Igreja Universal porque paga à Igreja o dízimo do que consegue ganhar com o lixo.


Rua
A catadora com a catação segue como uma silenciosa e patética escultura teatral. É como se fosse um fantasma gerado pela massa do lixo.


Irmãos
O Pai foi embora. A mãe que é lavadeira pegou equizema de bosta de cachorro nas pernas no trabalho da catação. Por isso os irmãos têm que continuar catando.


Mãe e filho
As crianças seguem o mesmo ritmo dos pais. Ninguém brinca, não dá tempo. A fome é urgente.


Seu Zé Pastor
É crente e sempre leva um radinho de pilha para ouvir programas evangélicos. Passa o tempo todo cantando hinos de louvação a Deus enquanto cata.


Crucificação
Calvário do catador que viveu e morreu aos 39 anos na miséria absoluta. Não conseguiu internação hospitalar e como morto não conseguiu atestado de óbito e nem caixão para ser sepultado porque não possuía documentação. Seu esquife foi o próprio carrinho de catar.


Vida no chorume
O chorume e a cadaverina são substâncias perigosas geradas pelo apodrecimento e a decomposição orgânica. Muito perigosas ao contato. No extremo da necessidade, o catador perambula sobre o lixo buscando algo para se manter vivo.


Dona Das Dores aconselhando
Menino que cheira cola vai pretinho pro inferno e fica colado no espeto do Satanás. Menino que não houve conselho, o Satanás fura os ouvidos.


Indo ao posto médico
Os pais levando o filho para o posto médico, caminhando vários quilômetros. Lá no posto, enfrentarão uma fila imensa para conseguir uma ficha para atendimento.
-“Se o médico faltar?”
-“Se o médico faltar ninguém será atendido”.
-“E se morrer na fila?”
-“Foi Deus quem quis assim”.
(Diálogo com o Manuel Carvoeiro)


Dona Deolinda e o neto Pichel
A única companhia da catadora quase cega, Deolinda, é o neto Pichel. Nas horas vagas, Deolinda reza, benze e cura dores, faz chá de tratamento e garrafada.


Silêncio, à espera dos candidatos
Quem vive no último extremo da vida aprende a se defender contra os candidatos a cargos eletivos usando o silêncio e a indiferença nos anos eleitorais. Os candidatos que chegam até a subir no aterro pedindo voto, não sabem que os catadores são sábios.


Família da viúva
“Família é todo mundo junto, nem que seja só amigado. Cartório e padre não mantêm ninguém junto. Quem se gosta tá junto.”


Levando a catagem
“Todo mundo que está junto nessa miséria tem que ajudar uns aos outros, de qualquer jeito, no transporte da catação.”


Família de religiosos
Não existe catador ateu ou agnóstico. Todos têm fé. São católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, catimbozeiros, macumbeiros, candoblesista e da Universal. “Nós que vivemos na miséria total, só estamos vivos porque Deus é grande e é assim que Ele quer”.


Mercado
“Lá embaixo o homem que compra o produto da catação nunca quer pagar o que a catação vale. Cata-se muito e se ganha pouco. Todos nós ficamos na mão do comprador de reciclagem.”


Diálogo
O Chico Neném disse que entende os urubus, os ratos e outros bichos porque presta muita atenção a eles. “Os bichos têm sua fala. É só a gente querer entender.”


Viúva do João Bebê
Dona Carmosa fazia a comida e o seu marido, João Bebê, saía vendendo na bicicleta. João Bebê foi assassinado. Por isso dona Carmosa tornou-se catadora para manter os cinco filhos. ”Dois assaltantes adolescentes tomaram o carrinho com a catação e mataram o João que reagiu. No dia da morte dele eu me vi obrigada a catar para levar qualquer coisa pra dentro de casa pros meus filhos cumê”. Esse fato é apenas um detalhe do cotidiano no meio da miséria absoluta. Irei pintar o retrato da Carmosa em agradecimento aos gostosos baião-de-dois para eu comer a trinta centavos o pratinho com direito a um copo de garapa de maracujá.


Vida no chorume
No meio dos montículos em decomposição, formam-se cascatas de líquidos viscosos de bactérias. É o pranto do consumismo que escorre a céu aberto por vales e penetra nos lençóis freáticos. No quadro, uma criança sonda a possibilidade de encontrar algo aproveitável.


Urubus chegando
Na competição os urubus são mais ágeis, entretanto o catador tem mais opção porque tudo pode servir, enquanto os urubus só querem cadáveres.


Menino do buraco
Não sei o seu nome. Disseram-me que a mãe o pariu escondida dentro de um buraco (bueiro em ruínas). Nesse local morou durante um tempo. O menino é mudo, mas honesto e muito trabalhador. Sua mãe morreu de beber cachaça e de sífilis. Disseram-me também que ela nunca soube quem era o pai do menino do buraco.


Sobre a derrama
Os catadores dispõem de alguns minutos para colher algo da derrama do caminhão. Logo em seguida o trator inicia a compactação do lixo.


Olhos do lixo
Todos os olhares são iguais, miradas de sondagens firmes e precisas, como da ave de rapina. O catador levado pela necessidade treina tanto os seus olhos que chega até distinguir objetos aproveitáveis no meio da massa em decomposição e sem cor definida.


Após a derrama
Cada derrama do caminhão é uma esperança em cada catador. Uma mãe pode se alegrar porque achou um tênis de uma criancinha. Para esta mãe, o tênis é aproveitável em seu filho. É um calçado de gente rica, portanto, para ela tem valor. Em casa, ao experimentar no pezinho do filho será uma festa.


Almoço no aterro
Tudo gira em torno do alimento do dia. “Se matou a fome hoje, tá tudo bem. Um pouco com Deus é muito, mas um muito sem Deus é nada. Amanhã, ora, Ele dá um jeito, né?”


Saco da merenda
Seu Chico Cego perdeu a vista num acidente sobre o chorume. Sem mais poder catar, dedicou-se a conseguir merenda para as crianças. Para isso sai mendigando, pela redondeza, restos de comidas, biscoitos, doces etc. Chico Cego é um homem bom. Apesar da cegueira, sempre agradece a Deus por conseguir trazer alguma merenda para os meninos. Também o chamam Papai Noel da rampa.


Catadora com coruja
“Para ser catador o cabra tem que ter os olhos de coruja que enxergam até no escuro.” (Elismar)


Paternidade
Chico Neném foi abandonado pela mulher que o deixou com um filho. O menino caiu no chorume e o Chico Neném fez uma promessa com São Francisco. O menino escapou com seqüelas na pele. “Eu levei o Chico para trabalhar um período na minha casa como pedreiro”.


Busca entre ratos e medo
Na rampa todos têm medo de tudo, mas o medo só é vencido pela necessidade instintiva de sobrevivência. Para eles o lixo é o terror e a fonte da sobrevivência.


Meninos do aterro
Tudo o que é mostrado na televisão como felicidade, eles não conseguem entender. A miséria do aterro é tão contundente e real que passa a ser um fenômeno natural e normal. Portanto, tudo o que acontece fora do lixo não é verdadeiro ou inacessível demais para ser compreendido. As crianças sabem que vivem, mas não sabem que são crianças iguais às crianças que sorriem felizes na televisão.


Espera
Duas catadoras aguardam a chegada do caminhão com o lixo. Esperam encontrar algo para a reciclagem e também levar “qualquer coisa” para dentro de casa. Nesse horário esperam encontrar sacos com restos de comidas dos restaurantes chiques. Amanhã, mais uma espera acontece.


Menino brincando com gato morto
Enquanto os pais catam, o menino brinca com o gato morto. Na ocasião, a princípio, eu quis impedir a brincadeira retirando o gato das mãos do menino, mas logo compreendi que devia respeitar aquele estado de alegria da criança. Logo adiante, os urubus aguardavam o fim da brincadeira para se alimentarem.


Herói do aterro
Chico Neném é considerado herói porque já apartou muita briga, evitou crime, ajudou a fazer parto e ajuda a todas as pessoas que estejam em situação pior do que a sua. Resolvi pintá-lo como um ser épico.


Damião
É um adolescente negro tipo pigmeu, raquítico, que está definhando devido ao vício de cheirar cola e até fumar maconha. Tudo o que consegue na catação é para manter o vício. Não conhece o pai, e a mãe “foi levada por um homem para trabalhar num cabaré”.


Por do sol atrás da rampa
O crepúsculo passa. Ninguém percebe. Na fome não existe poesia.


Ataque e defesa no dia 7
Os urubus voam alto quando estão com fome. Do alto mergulham em mirada certeira sobre o cadáver. Como os ratos, as famílias mergulham no lixo garimpando um precioso pedaço de pão mofado. Não sabem que hoje é o dia da independência do Brasil, 7 de setembro. A fome não pensa. Todos atacam para escapar.


No rumo da parteira
A jovem grávida catou até a última hora. Agora é levada pelo avô, Chico Jaca, para a parteira, utilizando seu carrinho de mão. Além da neta, no carrinho também vai um travesseiro, uma rede, uma maleta com as roupinhas do bebê. Além disso, vai uma sacola contendo sabonete, álcool, talco, algodão e mercúrio. Doação das colegas catadoras.


A fome é soberana
Tudo é da mesma cor, ou não existe cor. Nada é diferente. Os catadores se mimetizam na pasta do lixo. A massa dos catadores dá vida à massa inerte do lixo. A fome é soberana.


Delírio sem fim
Na rampa não existe o tempo, a noite, o dia. Apenas um delírio sem fim. O lixo não para de chegar. As pessoas e os bichos não param de catar.


Mãe e filho
Eles vêm de muito longe. O marido é presidiário. Diariamente ela sai com o filho para catar na rampa. Com muita dignidade e altivez afirma: “Eu não tenho preguiça para trabalhar. Eu e esse meu filho não deixamos faltar nada dentro de casa para comer. Se estamos nessa situação é porque meu marido matou foi um vagabundo, assaltante que me estuprou. Ele não matou um cidadão. Mas, enquanto ele estiver preso eu vou segurando a barra na catação.”


Medo na rampa
O chorume e o gás metano são o grande perigo. Mas existem os bichos agressivos que apavoram por estarem famintos.


Diálogo
Os mais velhos sempre estão aconselhando aos mais jovens. Os conceitos de moralidade geralmente são ao pé da letra da Bíblia, como os Dez Mandamentos católicos e de outras regras da Lei de Deus, segundo dogmas Evangélicos.


Família na rampa
Famílias inteiras perambulam com os casqueiros (ferros com unhas nas pontas para casqueirar o lixo), sobem e descem os montes de lixo procurando algo que as mantenham vivas.


Enterro do Delegado
O cachorrinho do Valdir Vigia chamava-se Delegado. Era um animalzinho muito inteligente e querido por todos. Foi atropelado. Os meninos fizeram seu enterro arrastando-o sobre um pedaço de saco plástico.


Cotidiano
“É assim mesmo, cada dia é a mesma coisa. Aqui tudo é igual porque todos estão com fome. Tanto faz ser urubu, rato, tapuru, cachorro, coruja e gente é tudo igual na catação. É o cotidiano.” (Dona Isolda)


Crispina, Cosme e Damião
Filhos de um Pai de Santo da Umbanda que ficou paraplégico de “uma macumba feita por um outro macumbeiro invejoso”. Então seus filhos passaram a catar para ajudá-lo. Dos três, dois são gêmeos. Com a morte do pai os meninos foram levados para trabalhar no corte da cana em São Paulo por um aliciador de menores para o trabalho escravo.


Dando de mamar sobre o lixo
A jovem adolescente para de catar, momentaneamente, para amamentar o filho recém nascido.


Um saco de rosários
No meio de uma derrama veio um saco cheio de rosários de “pérolas”, talvez provenientes do Paraguai. Seria produto de roubo, contrabando...


Pietá do lixo
Referência plástica a Pietá de Michelangelo. Pintura sobre o jovem catador José Carlos Ferreira de Sousa que viveu e morreu na miséria absoluta.


O rei sobre os que passam
No lixo o urubu é a majestade. Silencioso, sinistro, frio e exuberante. Parece que tudo fica sob seus pés. Lá embaixo, na caminhada, os catadores passam exaustos levando o peso da catação para vender.


Seu Chico Cego dando o de comer aos netos
O Chico já não cata mais. Cegou pelo chorume. Agora vive pedindo esmola para saciar a fome das crianças. Sempre veste a camisa do seu time, o Ferroviário Atlético Clube. Na hora da merenda fica cercado de crianças. No Natal é chamado de Papai Noel porque consegue presentes para as crianças.


Ocaso sobre a rampa
No lusco fusco as cores se degradam. As pessoas com sacos na cabeça se transformam visualmente em fantasmas ambulantes de filmes de terror deslizando sobre a imensa pasta de lixo que parece ter vitalidade e pensamento.


Hoje foi peixe
O caminhão da defesa sanitária fez uma derrama de peixe fora do prazo de validade. Nesse dia houve um festival de peixada sempre com uma cachacinha para matar os micróbios. Ninguém adoeceu, nem eu.


Batalha
O Cenário da rampa com a multidão de catadores faz lembrar o cenário dos grandes filmes épicos de batalha. Só que nos filmes é exército brigando contra exército. Na rampa é um exército de catadores brigando contra a fome.


Todos querem sobreviver
Como um sobrevivente que é resgatado de um terremoto a criança recolhe do meio do lixo os restos de uma boneca de plástico contendo ratos no seu interior. Para a criança esse foi o objeto mais ambicionado de sua procura.


Chica Oiuda
Francisca do Padeiro tem os olhos imensos claros e mansos daí a alcunha Oiuda. Ela aluga na diária tambores de plástico e carrinho de mão aos outros catadores. Oiuda também é catadora juntamente com o marido Toinho Padeiro. Eu paguei pela pose do retrato, mas ela reclamou que seus olhos ficaram grandes demais e suas colegas mangaram da pintura.


Hora da derrama
Assim que o caminhão derrama o lixo, os catadores mostram sua capacidade e habilidade em catar com o casqueiro durante alguns minutos, antes da chegada do trator para compactar o lixo. Também utilizam as mãos, enxadas, pás etc. É a competitividade na ação da sobrevivência.


Brincadeiras
Na derrama veio um gato angorá. Os urubus esperavam ansiosos que os meninos parassem a brincadeira com o gato morto.


Conservas imprestáveis
Uma carrada de conservas de salsichas vencidas no prazo de validade foi jogada no lixo. Na derrama a briga foi grande para pegar a maior quantidade de latas possível. Nesse dia foi uma festa. Todos comeram com cachaça. O que sobrou foi vendido nos botecos para fazer tira-gosto. “Abriu e não fedeu, tá limpo, pode comer.”


Sacos cheios
“Sacos cheios no fim do dia, menos fome amanhã.”


Catadores dos doces e o soberano
“Na luta, os meninos procuram o que é doce. Os urubus procuram o que é podre. Os meninos não encontram o que é doce. Os adultos não encontram o que é salgado. Todos comem o que é podre. Depois o soberano voa.” (Zizinho)


Calvário
Pintura sobre o jovem catador José Carlos Ferreira de Sousa que viveu e morreu na miséria absoluta. Não teve direito a médico, hospitalização e medicamentos. Depois de barrado em alguns hospitais públicos foi trazido dentro do seu carrinho de catar para o seu barraco, onde morreu. Por não ter documentação, não teve direito a guia do IML. Não teve direito ao caixão, nem mesmo a um padre para jogar água benta no enterro. Seu corpo foi levado em seu próprio carrinho, feito de sucata de geladeira, por alguns amigos e familiares até ao longínquo cemitério do Bom Jardim. Lá foi jogado numa vala comum. Era um poeta cantor.


Cachorros famintos
Cachorros disputam no lixo um saco plástico contendo um feto. Fiquei chocado, mas depois soube que sempre chega aborto.


Hora do comer
“... nós só para quando aparece o que comer. Só para pra dormir de qualquer jeito... nós só para pra levar a catação pro galpãozeiro... só para pra voltar de novo pro casqueiro. Mas nunca se para pra contar dinheiro.” (Pai Neguim Macumbeiro).


Retrato de Nonato do Anguzô e Dona Etelvina
Seu Nonato não traz mais anguzô com café, porque está na Santa Casa de Misericórdia tratando de um mal. Ele mandou um recado pedindo para eu levar a rezadeira pra rezar nele. Dona Etelvina, sua mulher, não pode fazer anguzô, nem as tapiocas. Levou uma queda e está no fundo da rede sem poder se mexer. Sua filha, Maria Vanderléia, só quer saber de farrear nos forrós e deixa os dois meninos menores com fome soltos na rua e na rampa, descalços, catando alguma coisa para comer. Amanhã irei trazer uma cesta básica e alguns remédios.


A briga dos cães
Latiam muito forte correndo de um lado para o outro. O barulho e a poeira me incomodavam. O maior soltou da boca uma sacola plástica depois que eu lhe dei uma cipoada no lombo. A sacola continha um feto. Logo em seguida os cães retornaram e todos queriam, ao mesmo tempo, disputar a sacola. Desceram a rampa, em grande algazarra, carregando a sacola. O som dos latidos iam sumindo ao longe como a finalização de uma sinfonia macabra.


Cochilo
Qualquer parada pode resultar em prejuízo. Entre uma derrama e outra o corpo é dominado pelo sono. Num cochilo é possível ser feliz. (Zé Oswaldo)


Cartazes do Natal
Um menino subiu a rampa cantando, puxava nas costas um pedaço de plástico como fosse a capa do superman. Na realidade era um pedaço de um cartaz publicitário que foi rasgado de um caminhão de refrigerantes cuja imagem era a fotografia do Papai Noel. O menino correu e foi dar de presente a sua mãe, a qual jogou o cartaz no chão e o improvisou como saco para depositar vários sapatos que chegaram numa derrama. Outros meninos continuaram a brincadeira com os pedaços de cartazes. Véspera do Natal de 1980.


Boneca sem perna
Uma menina achou uma boneca sem uma perna. Ela disse pra mim: “Meninas ricas não querem bem as suas bonecas. Jogam no lixo só porque está faltando uma perna. Aqui na derrama, nós pega a boneca, damos um banho nela e fazemos um vestidinho pra ela, né?” Seu irmão dá outro exemplo: “É, seu Gadelha. Os meninos ricos também não têm cuidado com os brinquedos. Um dia eu tirei do lixo um caminhão Mercedes sem as rodas da frente.” (Lucileuda e Tazinho)


Lavadeiras
Várias mulheres são obrigadas a lavar roupa para completar “o de cumê” conseguido pelo marido na catação.

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