Exposição 2018.03 – Design por Mulheres – 23/04/2018

(Transcrito do Catálogo)

Projeto Design por Mulheres

Design por mulheres é um projeto de Extensão Universitária do curso de Design, da Universidade Federal do Ceará, que nasce de algumas pesquisas, muitos nomes e uma imensa vontade de desbravar a história de mulheres no universo do Design, tendo nessa mostra sua primeira edição.

Este desmembramento de pesquisa, proposto por e realizado juntamente com alunas do curso, cujo interesse de investigar a gênese do Design nos movimentos de vanguarda moderna do século XX se concretiza, buscando um retrato inicial da participação da mulher nessa área, sua evolução e seus desdobramentos.

Um projeto que almeja, na sua essência dar visibilidade à mulher designer e que aqui ganha forma em contexto expositivo, para chegar a todos que se permitirem fluir pelas trajetórias aqui apresentadas e entrelaçadas entre si.

Dessa forma, o projeto extensionista provoca o diálogo entre a universidade, as práticas profissionais e a comunidade, trazendo à tona as multiplicidades de atuação das designers, apresentando conceitos, pensamentos, linguagens e projetos que remetem à universalidade do Design.

Tania Vasconcelos
Coordenadora do Projeto Design por Mulheres


Design por Mulheres

Design por Mulheres é uma exposição que recorda as trajetórias de nove mulheres designers, que expressivamente produziram repertórios singulares contribuindo para a construção e transformação do cenário do design dentro e fora do Brasil. Dois eixos estruturam a Exposição: um núcleo histórico que apresenta Bea Feitler, Emilie Chamie, Lina Bo Bardi e Lygia Pape, pioneiras de um design feito por mulheres com marcas inovadoras, simultaneamente à implementação do design no Brasil. O núcleo contemporâneo se irradia a partir de um diálogo com esse recorte histórico, onde as produções de cinco contemporâneas mostram o design em estreito diálogo com nosso tempo: Bebel Abreu, Cyla Costa, Fátima Finizola, Joana Lira e Paula Dib.

O sentido desse encontro entre pioneiras e contemporâneas é dar visibilidade às narrativas de designers mulheres que se interceptam à própria história do design como área específica, que no Brasil inicia através de um projeto moderno, universalista, europeu e masculino. Uma história ainda em construção aonde a maioria dos registros e documentações evidencia pesquisas e projetos elaborados predominantemente por biografias masculinas, cabendo nesse arquivo, a urgência da inclusão de trajetória de mulheres como outras narrativas para se refletir sobre os modos como o design se constitui.

O objetivo é refletir sobre a fundação do design como campo específico a partir de uma produção na diferença, no contra fluxo dos modelos patriarcais eurocêntricos que originaram a área. Nesse campo de forças o desafio histórico da mulher no design é mais um dos enfrentamentos do gênero feminino que encontra caminhos nas brechas e nas fronteiras, atuando no contra fluxo das relações de gênero e poder. Nessa lógica da diferença, a exposição apresenta nove mulheres designers de gerações diferentes e repertórios singulares que ampliam o escopo do design, atuando em diversos exercícios da área, desde o design gráfico, editorial, produto, superfície, ensino ao design social.

Na exposição suas histórias dialogam por afinidades ou por contraste, desenhando uma cartografia que revela como seus modos de produção, pensamentos, processos, referências, escolhas estéticas e conceituais são linhas que se intercruzam e em determinados pontos estabelecem zonas de contato entre pioneiras e contemporâneas. Nesse diagrama de linhas e fluxos dois aspectos se revelam comuns às nove trajetórias: singularidade e pluralidade. São vetores que se destacam como forças expressivas alinhavando as narrativas de pioneiras e contemporâneas nesse grande diagrama, ainda os diálogos são tecidos em escrituras de afetos, imagens, linhas e cores que desenham essa exposição como uma grande superfície de contato imanente para uma partilha do sensível [1].

Nesse sentido de partilha, Design por Mulheres busca provocar o olhar para outras épocas, ao mesmo tempo em que lança um olhar para a atualidade. Lugar one imagens proliferam, conteúdos e informações se misturam, tecnologias e suas interfaces ganham novos alcances no frenético fluxo dos desejos e expectativas contemporâneas. Deseja ainda ampliar o conhecimento sobre o campo de design de modo que potencialize o interesse e o contato com a área dentro e fora do mundo universitário.

[1] RANCIERE, Jacques. Partilha do sensível: estética e política. São Paulo: EXO Experimental org.: Ed. 34, 2005.

Luciana Eloy
Curadora


Design no Brasil: ideologia, implementação e atuação das mulheres

O design chega ao Brasil como parte de um conjunto de ações de uma política nacional desenvolvimentista iniciada nos anos 1950, tendo em vista o propósito de inserir o país em um novo cenário mundial que se desenhava a partir do final da Segunda Grande Guerra. Esta política investe na importação do pensamento do design europeu – construtivista – como um caminho para formar profissionais que deveriam servir às novas indústrias que chegavam ao país. Estratégia que envolveu a importação de modelos culturais, econômicos, sociais e produtivos dos chamados países do primeiro mundo para os países do terceiro mundo.

Desse modo, o Design aporta no Brasil moderno, masculino, vinculado a uma utopia social e a um vocabulário de formas ancorado em princípios universais e funcionalistas, nassa bagagem, trazia tensões e conflitos gerados pela modernidade, relativos à aplicação de modelos pré-estabelecidos para lidar com outras dinâmicas sociais locais. O que significa dizer que, ancorado numa modernidade postiça, o design trazido ao Brasil não observou que o contexto sociocultural local não funcionaria na lógica dos princípios universais.

No que se refere à implementação do ensino do Design – como parte desta política desenvolvimentista -, sabemos bem que não se deu de forma diferente. Acerca da ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial) na década de 1960, críticas foram tecidas sobre a inadequação da transposição de modelos de ensino e de práticas de Design formulados no contexto alemão (via HfG de Ulm e Bauhaus) em uma adaptação ao contexto brasileiro.

As mesmas dificuldades ocorreram de forma semelhante na Europa. Alguns documentos retratam bem isso: na fotografia dos artistas-professores da Bauhaus, a única mulher presente na foto é apresentada na legenda como desconhecida. Sintoma transposto para a fase de implementação do Design no Brasil, onde identificamos um número proporcionalmente menos de mulheres – dos 36 designers identificados pelo pesquisador Guilherme Cunha Lima[2] como integrantes da fase pioneira, somente três são mulheres. Da mesma forma, houve uma confirmação dos preceitos modernos no sentido de subvalorizar outros saberes divergentes da cultura eurocêntrica oficial: indígenas e africanos. O que sustenta a continuidade da lógica colonialista.

A partir desde cenário que ancora o pensamento de Design no Brasil, podemos argumentar sobre a relevância de uma reflexão sobre o design feito por mulheres. Nesse sentido, não falamos de um design outro, nem mesmo queremos falar sobre as qualidades femininas que sedimentara essa área de conhecimento em âmbito nacional. Antes disso, consideramos o papel social do Design, decorrente não somente das interferências na cultura material, mas, sobretudo, nos processos de construção da subjetividade e da identificação do profissional.

Design por Mulheres pontua o papel das mulheres na implementação da ideologia do Design no Brasil. Ainda que parta de um recorte histórico, não propõe uma leitura histórica do tema. Deseja, sim, pontuar que o Design no Brasil contou com mulheres na sua linha de frente e como essas práticas seminais reverberam hoje nas produções de designers contemporâneas. Desse modo, nessa exposição, pioneiras e contemporâneas se encontram paela singularidade e pluralidade de suas produções, levando a refletir sobre as redes de saberes e práticas que sustentam todo o modo como pensamos e fazemos Design.

[2] Designers atuantes entre os anos de 1922 (data do início do modernismo brasileiro) e 1966 (ano de conclusão de curso, da primeira turma da Escola Superior de Desenho Industrial – ESDI): Carlos Scliar, Celso Carrera, Claus Bergner, Décio Pignatari, Emilie Chamie, Fernando Lemos, Gastão de Holanda, Geraldo de Barros, Goebel Weyne, Gunther Weimer, João Cabral de Mello Neto, João Carlos Bornancini, Karl Heinz Bergmiller, Lina Bo Bardi, Lúcio Grinover, Ludovico Martino, Mary Vieira, Mauricio Nogueira Lima, Mauro Vinhas de Queiroz, Michel Burton, Michel Arnout, Rubem Martins, Sérgio Rodrigues, Tomás Santa Rosa e Vicente do Rego Monteiro. LIMA, Guilherme Cunha. Hipermídia adaptativa como ferramenta para o design de informação: o caso “Pioneiros do Moderno Design Brasileiro”. InfoDesign Revista Brasileira de Design da Informação 4-2 [2007], 1-11

 ISSN 1808-5377.

Cláudia Marinho
Curadora


Identidade Visual

Como descritivo do vivido, a História deveria ser neutra, imparcial. Entretanto, sob o comando das mãos que a relatam, estão cérebros comprometidos com modo de pensar, fazer, existir… com a reprodução do que está porto, do já naturalizado. Essa História, narrada por alguns poucos, evidencia pares. Algo notório quando partimos para a análise. Dentre os livros mais usados quando se estuda a História do Design nas universidades brasileiras, o percentual de mulheres citadas é sempre baixo. Vejamos: História do Design Gráfico de Philip B. Meggs e Alston W. Purvis, somente 7,2% dos nomes citados são de mulheres; Design Gráfico: Uma história concisa de Richard Hollis: apenas 2,2%; Uma introdução à História do design de Rafael Cardoso: temos 7,2%; Linha do tempo do design gráfico no Brasil de Chico H. de Melo: 11,2% [3]. Todos e todas que não cabem no mesmo homogêneo traçado, não alcançam as linhas escritas nas páginas da história.

Linhas individuais e coletivas, de encontros e aproximações. Como uma releitura de mapa hidrográfico, essas linhas representam não o fluxo, o “natural”, mas o oposto. Como contra fluxo, essas mulheres representadas nas linhas, escrevem suas histórias em trajetos muitas vezes invisibilizados na voz patriarcal dos livros. Linhas femininas e de força, que encontram suas potência no encontro, ramificado e impulsionando outras histórias.

Da soma do púrpura, branco e verde, trouxemos a referência do movimento sufragista. Cores de luta, de uma esperança não silenciosa, do agir. O Design Por Mulheres é uma ação que se faz na visibilidade de mulheres designers, de percursos que nos orgulham e inspiram. Promover a visibilidade incita novas aproximações, provoca um sentimento de pertencimento e nos faz ver do que somos capazes.

A história descrita nos livros nos parece estática, eterna, fixa em um passado inalcançável, como uma estátua que a tudo observa no meio de uma praça. Estátua de ouvidos de bronze, como , como já falou Cecília Meireles, incapaz de nos ouvir. Para Cecília, em oposição a esse simbolismo, estão as águas, “que são o contrário das estátuas, por fluidas e transparentes, e cuja eternidade não é a do estacionamento, mas a da sucessão.”O contra fluxo enquanto metáfora, também é História. não a tradicional, rígida e implacável com as diferenças, mas a História que nos inspira, que nos move e nos possibilita perceber que é no hoje que se faz. A História também é nascente.

[3] LIMA, Rafael. Designers mulheres na História do Design Gráfico: o problema da falta de representatividade profissional feminina nos registros bibliográficos.
[4] MEIRELES, Cecília. “Crônicas de Educação” № 5. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.257.

Camila Barros
Coordenadora da Identidade Visual


Design por Mulheres

Coordenadora: Tania de Freitas Vasconcelos
Mentora do Projeto: Catarina de Alencar Ribeiro
Alunas Pesquisadoras: Beatriz Alexandre Barros Nogueira, Bianca Tiane de Carvalho dos Santos, Ivna Oliveira Rozas, Lana Carolina Silva Pereira, Larissa Dorneles da Silva Rates, Luisa Pitombeira Lage, Lylyanne Viana Nogueira, Maria Catarina de Alencar Ribeiro, Ravena Souza da Silva e Sabrina Helen Mariano dos Santos
Curadoria: Luciana Eloy Miranda e Cláudia Teixeira Marinho
Revisão de Textos: Bethania Maranhão
Tradução de Textos: Silvia Marina Dias Filipe

Identidade Visual

Coordenação: Camila Bezerra Furtado Barros
Projeto Gráfico e Editorial: Ana Beatriz Teixeira Marciano, Bianca Tiane de Carvalho dos Santos, Luisa Pitombeira Lage e Maria Catarina de Alencar Ribeiro

Design Expográfico

Projeto Expográfico e Produção: Tania de Freitas Vasconcelos
Assistente de Expografia: Monica Rodrigues dos Santos
Painel Interativo: Cláudia Teixeira Marinho, Luciana Eloy Miranda e Monica Rodrigues dos Santos
Motion Graphics: Sara Maria Marques Bastos
Design Computacional: Roberto Cesar Cavalcante Vieira